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DATA DA PUBLICAÇÃO 31/08/2014 | Saúde e Ciência
Veneno de vespa age contra perda de neurônios por Parkinson, diz estudo
Veneno de vespa age contra perda de neurônios por Parkinson, diz estudo Pesquisadores usaram componente do veneno da vespa Parachartergus fraternus para tratar Parkinson em ratos (Foto: Márcia Renata Mortari/Divulgação)
Pesquisadores usaram componente do veneno da vespa Parachartergus fraternus para tratar Parkinson em ratos (Foto: Márcia Renata Mortari/Divulgação)
Pesquisa foi feita em ratos com lesão cerebral semelhante ao Parkinson.

Ação neuroprotetora é de um fragmento de proteína do veneno.


Um componente do veneno da vespa mostrou-se eficaz em impedir a perda de neurônios provocada pela doença de Parkinson. O estudo, desenvolvido no Laboratório de Toxinologia da UnB, foi feito em ratos com uma lesão cerebral que simula o efeito do Parkinson. A pesquisa foi apresentada nesta sexta-feira (29) na XXIX Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Caxambu, Minas Gerais.

No Parkinson, ocorre a perda de neurônios em uma região cerebral específica chamada substância nigra, ou substância negra. Os neurônios dessa região são responsáveis pela produção do neurotransmissor dopamina, cuja falta resulta em perda progressiva do controle motor.

Um dos principais tratamentos disponíveis atualmente baseia-se na reposição da dopamina. Essa estratégia trata os sintomas, sem porém interferir na evolução natural da doença. Ou seja, os neurônios produtores de dopamina continuam morrendo. Há vários tratamentos potencialmente neuroprotetores em estudo, porém nenhum deles conseguiu impedir definitivamente a degeneração dos neurônios no paciente de Parkinson.

Diante dessa falta de alternativa, a pesquisadora e professora da UnB Márcia Renata Mortari – que trabalha com a busca de novos componentes de venenos de animais que possam servir de tratamento para doenças – resolveu testar se o veneno de vespa poderia ter alguma ação neuroprotetora para o Parkinson.

Primeiro, ela isolou os peptídeos presentes no veneno, ou seja, os fragmentos de proteínas que o compõem. Depois de purificar cada um dos peptídeos, ela passou a aplica-los em ratos com lesões cerebrais que simulam os efeitos do Parkinson. Márcia e sua equipe testaram quatro peptídeos sem sucesso, até que o quinto componente testado apresentou resultados promissores.

O peptídeo foi injetado uma hora após o início da lesão que simula o Parkinson. Os animais receberam uma dose por dia durante quatro dias. Testes comportamentais, que avaliaram o equilíbrio e as atividades motoras dos ratos, mostraram que os que foram tratados com o peptídeo não apresentaram os sinais típicos do Parkinson, diferentemente do que ocorreu com os animais que receberam placebo.
A pesquisadora e professora da UnB Márcia Renata Mortari resolveu testar se o veneno de vespa poderia ter alguma ação neuroprotetora para o Parkinson.

Uma contagem dos neurônios produtores de dopamina feita nos dois grupos também mostrou que, entre os que receberam a substância retirada do veneno, houve uma preservação da quantidade de células nervosas, o que sugere que o novo peptídeo tem uma ação neuroprotetora em casos de Parkinson.

“Ele impediu a morte dos neurônios, mas não resgatou o neurônio que já estava em apoptose (morte celular)”, diz a pesquisadora. “O que eu penso é que ele pararia a degeneração em qualquer nível da doença, mas quanto antes começar, melhor. O objetivo do teste é que seja um composto para impedir a progressão da doença, mas não é capaz de reverter a doença já estabelecida.” Os resultados são iniciais e testes em humanos ainda devem demorar vários anos para ocorrer.

O novo peptídeo foi chamado de fraternina, pois foi extraído da vespa Parachartergus fraternus. Segundo Márcia, o estudo utilizou mil vespas retiradas de um mesmo ninho. O veneno de cada uma foi retirado manualmente.

Márcia observa que os venenos de animais têm sido uma fonte importante de pesquisa de novos tratamentos. “Durante todo o processo de evolução, os animais desenvolveram uma série de compostos bioativos em seus venenos com objetivo de paralisar as presas ou de se defender contra o predador. A natureza já tem funcionado como uma oferta de compostos neuroativos que a gente usa para tratamento de doenças.”

Por Mariana Lenharo - G1, em Caxambu
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