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DATA DA PUBLICAÇÃO 06/03/2017 | Cultura
SP volta a respirar cultura abaixo da superfície com reabertura de teatro
 SP volta a respirar cultura abaixo da superfície com reabertura de teatro Teatro do Centro da Terra, no Sumaré, que se torna um Espaço Cultural com curadores que pretendem trazer artistas inovadores a partir desta segunda-feir (6) (Foto: Alan Morici/G1)
Teatro do Centro da Terra, no Sumaré, que se torna um Espaço Cultural com curadores que pretendem trazer artistas inovadores a partir desta segunda-feir (6) (Foto: Alan Morici/G1)
Teatro do Centro da Terra, no Sumaré, passou por reforma para receber artistas inovadores selecionados por três curadores.

A capital paulista volta a respirar cultura a 15 metros abaixo da superfície da terra nesta segunda-feira (6). O Teatro do Centro da Terra, inaugurado há 16 anos no Sumaré, Zona Oeste de São Paulo, foi reformado e reabre as portas como uma curadoria que promete expor o trabalho de artistas criativos e experimentais da atualidade.

A construção no subsolo do edifício localizado na estreita Rua Piracuama foi ideia do premiado diretor de teatro Ricardo Karman, que também é arquiteto. O teatro intimista com palco italiano, pequeno, e plateia para cem pessoas levou dez anos para ficar pronto e pelo menos outros cinco para ser completamente regularizado pela Prefeitura de São Paulo. Para chegar ao teatro, é preciso descer 61 degraus de escada ou usar um elevador. Apesar da profundeza, internet "pega lá embaixo".

Questionado sobre como surgiu a ideia do teatro subterrâneo, Karman explica que foi guiado por um instinto pragmático. “Todos os meus trabalhos são processuais [quando o projeto não tem desfecho definido e avança conforme as oportunidades]. Eu ensaiava em um salão ao lado deste terreno com a Kompanhia do Centro da Terra, que fundei em 1989, e pensava que era um bom espaço para um teatro”, explicou.

O diretor contou que as obras foram difíceis porque demandavam muito dinheiro, engenharia para fortalecer a estrutura do prédio e licenças da Prefeitura. “Era difícil e não tinha muito dinheiro, mas fiz um trabalho guerrilheiro e que contou com ajudas inesperadas, como dos próprios fiscais da Prefeitura que vinham aqui e acabavam se encantando com a ideia.”, disse.

A inauguração do Teatro do Centro da Terra ocorreu oficialmente em 2001, mas em 1999, Karman realizou a abertura do espaço para convidados casando-se com a artista plástica Keren Ora Karman no palco, após alguns dias de ensaio e com a presença de críticos de teatro. “Foi divertido. Os críticos perguntavam se ganharíamos o prêmio Shell”, conta o diretor, que dois anos mais tarde foi agraciado com o prêmio pelo espetáculo “Viagem ao Centro da Terra”.

Keren assumiu a gestão do espaço, criando cursos de artes para crianças e adolescentes, e elaborando o conceito da nova fase do teatro, que nesta segunda se torna um espaço cultural com apresentações musicais e curadoria para receber mais peças de teatro.

“Temos que dar conteúdo ao espaço e resgatamos o conceito do trabalho que fizemos no Circuito Petrobras em 2001, quando diversos grupos apresentaram espetáculos experimentais aqui”, relembra Keren. “Será um espaço alternativo, experimental e contemporâneo, apresentando artistas cujos trabalhos envolvem pesquisa, experiência e momentos de encantamento”, explicou.

O fundador do teatro ajuda a explicar o conceito da nova proposta. “Onde está o contemporâneo? Qual é a linguagem do nosso tempo? Como é a expressão artística dessa era de deslumbramento e velocidade? Queremos trazer para cá a produção dos caras que justamente expressam esse pensamento contemporâneo”, disse Karman.

Três curadores vão ajudar na seleção dos artistas e projetos que se apresentam no Centro da Terra. O diretor Ruy Filho trará espetáculos de duas semanas e que poderão ocupar todos os ambientes do edifício, inclusive as escadas e o café-bar. O dramaturgo Dib Carneiro Neto cuida do projeto infantil. “Se for Chapeuzinho Vermelho, que tenha uma nova proposta para a velha história”, explicou.

A programação teatral ainda está sendo preparada pelos curadores, mas a musical, que será desenvolvida pelo jornalista Alexandre Matias, começa nesta segunda. Ele oferecerá uma nova proposta de temporada de shows, com quatro apresentações diferentes de um mesmo artista, que é desafiado a sair da zona de conforto.

“Acho que o show virou uma apresentação formulaica. Os artistas começam todos os shows de uma temporada com a mesma música, depois de algumas canções apresentam os músicos, em seguida fazem uma gracinha. Perde o inesperado”, explica Matias.

O primeiro artista a se apresentar é o prolífico Tatá Aeroplano, que já desenvolve projetos musicais de gêneros e parceiros diversos, como Otto, Criolo e Karina Buhr. “Serão quatro segundas-feiras bem diferentes entre si em que poderei explorar coisas que realmente gosto, inclusive com a exibição de clipes que dirigi”, adianta Tatá.

“Apesar de completar 15 anos de carreira, não vou apresentar músicas antigas. Gosto de olhar para frente e buscar novidades. Vou apresentar o que estou fazendo e o que vou lançar, apontando para o futuro e para os próximo 15 anos”, explica.

A reinauguração do Espaço Cultural Centro da Terra ocorre nesta segunda-feira, com o show de Tatá Aeroplano às 20 horas. Os ingressos para o evento estão à venda pela internet e custam R$ 30.

“Estamos lutando todos esses anos para manter este espaço sem patrocínio. É uma atitude de resistência”, afirma Karman. “Todo mundo fala que a arte é a cereja do bolo, que primeiro você tem que garantir a alimentação, o plano de saúde, a moradia, e só depois você pode sentar em uma sala de concerto e ouvir música. Eu discordo. A arte pra gente é o gosto do bolo, é o nosso cotidiano, é o que a gente come, vive, pensa e vê”, completa.




Por Vivian Reis - G1 São Paulo
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