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DATA DA PUBLICAÇÃO 27/08/2018 | Setecidades
Obstáculos urbanos
Obstáculos urbanos Embora região tenha 765,4 mil indivíduos com dificuldades, não há condições adequadas nas sete cidades. Foto: Claudinei Plaza/DGABC
Embora região tenha 765,4 mil indivíduos com dificuldades, não há condições adequadas nas sete cidades. Foto: Claudinei Plaza/DGABC
Já imaginou todos os habitantes de Santo André surdos, cegos ou cadeirantes? Esta é a quantidade de pessoas com deficiência no Grande ABC atualmente: 765,4 mil indivíduos, conforme o último Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), de 2010. Apesar do cenário, na prática não são observadas condições adequadas de estrutura urbana para garantir a estes munícipes o direito de ir e vir.

Bem-humorada e comunicativa, a auxiliar administrativa Andrea Tucci, 38 anos, se preocupa principalmente com as calçadas. Ela é cega desde os 17 anos, quando teve retinose pigmentar. Atualmente está desempregada, mas ‘ajuda’ os tios em uma lanchonete no Centro de Santo André. No trajeto de casa, no Jardim Irene, até o trabalho, de transporte público, ela precisa desviar de cadeiras, mesas e placas de rua. “As calçadas são ruins. Caminho pela rua. Saio dando ‘strike’ em tudo pela frente.”

Andrea costumava sair sozinha, mas, em 2016, sofreu um assalto perto de casa e foi agredida. “Às 7h, um homem me deu um tapa no rosto e levou meu celular”, lembra. Desde então, ela prefere andar acompanhada.

A massoterapeuta Quele Aparecida Galdino, 42, também é cega e usuária de transporte público. “É complicado ter de perguntar para as pessoas qual ônibus está vindo e, quando ele chega cheio, tem que ficar procurando lugar para sentar, tateando, porque ninguém ajuda”, contou. Apesar de a locomoção ser tarefa difícil, Quele também se preocupa ao caminhar pelo bairro. Moradora do Jardim Las Vegas, em Santo André, é obrigada a andar por ladeira repleta de degraus e desníveis.

“Prefiro ir pela calçada, descendo degrau por degrau, devagarzinho, do que ir pela rua com risco de ser atropelada ou dar de cara com um carro estacionado”, observa. Quele também tem de desviar de lixeiras domésticas, penduradas em portões ou fixadas no meio das calçadas, além de fezes de cachorro, muito frequentes nas vias da região.

A intérprete Fernanda Lima, 22, surda de nascença, pesquisa os caminhos que não conhece antes de sair de casa. Tudo para não precisar pedir informações. “Já aconteceu de ter dúvida sobre algum local e não conseguir entender bem o que a pessoa disse”, lembra. Fernanda, que mora no Rudge Ramos, em São Bernardo, depende da comunicação em libras, no entanto, observa a raridade que é encontrar intérpretes na cidade. Para conseguir ‘se virar’, ela aprendeu a ler lábios. “Também sinto falta de legendas em filmes brasileiros, novelas e programas, coisas pouco pensadas pelas emissoras”, ressalta.

Outros dois jovens com dificuldades na mobilidade urbana e que usam cadeira de rodas são o estudante Nathan Dias, 18, morador do Jardim Ipanema, em Santo André, e a assistente executiva Joseane Lopes, 29, que reside no Taboão, em Diadema. Os dois concordam que um dos problemas mais complicados é o transporte público. “A locomoção em alguns lugares é bem precária. Por vezes, os elevadores dos coletivos estão quebrados.”

Para Joseane, um dos desafios diários são os portões do Terminal Metropolitano de Diadema. “Para mudar de plataforma, preciso esperar alguém vir abrir as portas”, diz. “Em geral, a situação está bem complicada. Todo dia temos um obstáculo novo.”

"Deficientes também são eleitores", cobra especialista

Para a coordenadora técnica da Associação dos Deficientes Auditivos-Visuais e Deficientes Auditivos, Cristiane Calciolari, o mais urgente a ser tratado hoje é “conscientizar governantes sobre a necessidade de acessibilidade. Os deficientes também são eleitores e têm o direito de requisitar o que a lei já determina.”

Ela acredita que melhorar a qualidade dos intérpretes nas escolas e incluí-los nos postos de Saúde e hospitais já seria “grande passo”, além de instalar mais rampas e ampliação dos pisos táteis nas cidades.

Já a arquiteta Beatriz Oliveto, da ArchProject, diz que a acessibilidade é benefício de todos. “É para a criança que não alcança o corrimão, para a gestante que tem dificuldade em subir escadas, para pessoas recém-operadas ou que fazem algum uso de produto ortopédico. Acessibilidade é inclusão e não exclusão. A Prefeitura poderia criar um programa de incentivo para que ambos possam ajudar a melhorar o município, na locomoção”, considera Beatriz.

Prefeituras destacam investir em acessibilidade

Quatro das sete cidades informaram realizar investimento em acessibilidade. Santo André informa que promove curso básico de libras para servidores da recepção do Executivo. Sobre o transporte público, 96% da frota é adaptada.

Já São Bernardo observa que estão em curso projetos com esta temática, entre eles, a instalação de Central de Libras para garantir o atendimento nos serviços públicos municipais. “A Administração criou, em junho, o Departamento de Cidadania e da Pessoa com Deficiência”, observa, em nota. Conforme a Prefeitura, oito ônibus municipais não possuem acessibilidade.

Mauá informou cumprir as normas de acessibilidade “dentro das possibilidades técnicas e financeiras”.

Ribeirão Pires observa o trabalho de mapear as demandas de pessoas com deficiência. O município diz que 100% dos ônibus são acessíveis, e que conta com profissionais para atender munícipes com deficiência.

Por Bianca Barbosa - Especial para o Diário
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