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DATA DA PUBLICAÇÃO 06/03/2008 | Cultura
O último cinema
O cenário é desolador: à esquerda da entrada, portas e janelas de madeira maciça, ricas em detalhes, parte de dias que ficaram no passado. À frente, antigas máquinas de pipoca, caixas, entulho e sujeira, muita sujeira. Alguns passos e chega-se à sala de espera.

Poltronas antigas ainda estão presas às paredes descascadas. No salão, espaço para 2.171 lugares, dezenas de luminárias e marcas de uma tela assustadoramente grande.

O que era glamour tornar-se, pouco a pouco, literalmente, pó. Desde a semana passada, o prédio em que funcionava o antigo Cine Colonial, em São Caetano, é demolido por uma construtora. No local, serão construídos dois prédios de apartamentos. “É o ritmo do progresso”, lamenta Valter Lorenzini, um dos herdeiros do antigo cinema, o último do Grande ABC a conservar as características originais desde sua fundação.

Construído em 1951, o, até então, Cine Primax funcionou até meados dos anos 1970, quando sofreu um incêndio criminoso. Depois de alguns anos fechado, reabriu sob o nome de Colonial. “Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Foi aqui que trouxe minha primeira namorada”, conta o comerciante aposentado Edmar Zamboni Ortega, de 66 anos. “Naquela época não tínhamos o que fazer. Era isso ou parque de diversão”, lembra. “Em alguns filmes, a fila da bilheteria dava a volta no quarteirão”.

Após encerrar suas atividades em 1986, permaneceu vazio até ser alugado por uma igreja evangélica. Em 2005, por três meses, abrigou também uma pista de kart.

Há dois meses, um segurança foi colocado na entrada da construção para evitar que moradores de rua invadissem o prédio, o que já era comum. Responsável pela atividade, Márcio Roberto do Nascimento revela que chegou a ver vizinhos do edifício aos prantos. “Até eu fiquei sentido. Ouvi histórias maravilhosas. As pessoas estão muito tristes”, diz.

Projeto
Cinéfilo ‘desde que se conhece por gente’, o fotógrafo e pesquisador Atílio Santarelli conta que levou o projeto de restauração do Cine Colonial ao prefeito José Auricchio Júnior (PTB). “Chamei técnicos, arquitetos, restauradores e fizemos um estudo de como poderíamos reabrir o cinema. Deixei tudo na Prefeitura há uns dois anos”, afirma. “Com a demolição, perdemos uma parte da identidade, da história do município”.

Vendida a uma empresa há dois meses por cerca de R$ 3,5 milhões, o edifício pertencia à família dos Lorenzini desde o início. Segundo o herdeiro Valter, existiam pessoas na família que não queriam o negócio. “Eu mesmo cheguei a levar a assessores do prefeito a intenção da venda do imóvel. Não sei se isso não chegou, mas a Prefeitura nunca nos procurou”, explica. “A família cresceu muito e não queria mais fazer negócio junto. Aí tivemos de vender”.

O Diário procurou o prefeito Auricchio. A assessoria de imprensa afirma que um pré-projeto realmente foi apresentado, mas que, há cerca de um ano, passava por um processo de levantamento jurídico para uma possível desapropriação do local.

Ainda segundo a assessoria, a Prefeitura está surpresa com a demolição e, nos próximos dias, tentará reverter a situação. Representantes da Imolev Empreendimentos não foram localizados para comentar o caso. De acordo com alguns operários, os tratores derrubarão toda estrutura do antigo cinema dentro de 15 dias.

O fim do glamour
Thiago Mariano - Especial para o Diário

A era dos cinemas de rua no Grande ABC acabou. Não existem mais salas desse tipo, a não ser as que exibem filmes pornô, como o Cine Scala e Pégasus, de São Bernardo. O último grande cinema do Grande ABC a fechar foi o Cine Vitória, de São Caetano, em 1998, para a transformação do espaço em uma casa de espetáculos.

Dois cinemas pequenos, se comparados aos da década de 1950, fecharam as portas há pouco tempo. O Cine Popular, de São Bernardo, que foi inaugurado em 2004 e tinha 194 lugares, hoje apresenta programação pornográfica.

Segundo o proprietário, Tércio Antonio Nelli, a dificuldade em conseguir títulos com as distribuidoras, a concorrência com os grandes cinemas e a pirataria, são os grandes culpados: “Passo filmes pornô porque são as únicas opções fáceis de distribuição e retorno do público.”.

O Cine Center, em Ribeirão Pires, também de Tércio, não teve o mesmo fim e foi fechado em dezembro do ano passado: “Inaugurei com 30% do público esperado. Consegui segurar o prejuízo, que estimo em R$ 60 mil, por pouco mais de um ano e meio”, diz.

A maioria das cerca de 40 salas de cinema contabilizadas pela reportagem virou um outro tipo de comércio. Muitos prédios foram demolidos e outros tiveram as construções aproveitadas.

Já o Cine Iporanga, Studio Center e Tamoio, de Santo André; Real e Max, de São Caetano e Rudy Center, de São Bernardo, viraram igrejas evangélicas. O Lido/Urca e o Vitória, de São Caetano, viraram casas de espetáculos e tiveram as instalações readequadas.

Um espaço que pode voltar a ser cinema de rua é o Carlos Gomes, no Centro de Santo André. Inaugurado em 1925, na Rua Coronel Fláquer, foi fechado em 1987 e transformado em loja no ano seguinte. Após protestos populares, a Prefeitura assumiu o local no início da década de 1990, quando ele foi tombado. Hoje, funciona para aulas da escola livre de cinema e vídeo. Sua estrutura está abandonada e a prefeitura, com o projeto de revitalização do Centro da cidade, inclui o cinema nas obras de reforma. Mas sem prazos.

Anos dourados
Os prédios que abrigaram antigas salas cinematográficas há muito se perderam. O Tangará preserva pouco do que foi no passado. Inaugurado em 1950, era a sala mais glamourosa de Santo André. Tinha 2.600 lugares e tela gigante, cerca de quatro vezes maior do que as encontradas nos shoppings. Sancas e luzes indiretas, além da imensa abóbada no teto, mexiam com a iluminação e os sentimentos de quem assistia aos filmes. Hoje, é estacionamento. Alguns dos antigos objetos, como projetores, cortinas, cartazes antigos, e a abóbada, ainda permanecem no local.

Segundo o cinéfilo e memorialista Atílio Santarelli, ir ao cinema era um ritual: "As pessoas colocavam suas melhores roupas. Era uma tensão esperar a cortina abrir para a exibição da história". O programa era para a família inteira.

Por Natane Tamasauskas - Diário do Grande ABC
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