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DATA DA PUBLICAÇÃO 23/11/2008 | Turismo
Mãos preciosas
Trançados em palha e cipó, garrafinhas de areias coloridas extraídas das falésias de Beberibe, redes de dormir, cerâmica, bordados, artigos em couro e um sem-número de variedades de renda. O artesanato cearense é um dos mais diversificados do País, e também mais belos.

No livro Mãos Preciosas - O Artesanato do Ceará (151 páginas, R$ 98), lançado no início de outubro pela Luste Editores, o autor Oswald Barroso e o fotógrafo Valdemir Cunha mostram que a beleza pode brotar nos meios mais inóspitos, inspirada em belíssimas paisagens, na criatividade do povo e na infinidade de expressões artesanais que delas resultam.

O tom artístico dos textos e imagens revela o imaginário de uma terra muitas vezes árida, mas sempre abundante em luz e poesia. Confira abaixo alguns artigos confeccionados com esmero pelos artesãos locais e que não devem ficar de fora da bagagem no retorno a São Paulo.

Louça de Barro
Talvez observando o trabalho do joão-de-barro, homens e mulheres tenham adivinhado suas possibilidades, pois não há melhor oleiro que aquele pássaro. Depois, verificaram que, aquecida pelo fogo, a argila endurece feito pedra e pode substituí-la na sua utilização. O resultado são vasilhas, panelas, filtros de água e centenas de bibelôs modelados na forma de animais, frutas, sanfoneiros, mulatas, vaqueiros e outras figuras típicas do sertão nordestino. Além das abstrações, a coloração dos artigos varia conforme a localidade: a louça de Cascavel é avermelhada, a do Ipu é parda e a de Viçosa do Ceará é mais clara. Em geral, as mulheres modelam o barro e os homens se encarregam de trazer a lenha, fazer o forno, transportar a matéria-prima e arrumar a louça.

Couro
Nas fazendas, quase tudo era de couro, das camas e cadeiras às peças do traje completo do vaqueiro. No final do século passado, apareceram no Nordeste os curtumes industriais e, com eles, o seleiro especializado e o artesão de couro, que diversifica sua produção fabricando calçados, bolsas e objetos de uso caseiro. Os principais ''santuários'' do couro ficam no sertão cearense.

Bordados e Filé
Os bordados em tecido aparecem praticamente em todo o Ceará, embora se concentrem principalmente em Maranguape, Itapajé, Trairi, Croata, Irauçuba, Itatira e Viçosa do Ceará. Misturam-se com outros artesanatos femininos, que resultam de trançados em fio e artes em Tecidos. Muitos deles, como o tricô e o crochê, são tidos como habilidades que qualificam as moças para o casamento. O macramé, outra tecelagem manual, apareceu só recentemente. É praticado principalmente por homens, na confecção de sacolas, bolsas e estandartes decorativos. De seus retalhos, as mulheres produzem o fuxico, espécie de botão de pano que compõe tapetes, toalhas de centro de mesa, colchas etc. Já o filé é um bordado em malha, com uma renda de ponto mais largo, só que preso numa grade quadriculada de fios, semelhante a uma rede de pesca. Sobre essa espécie de tela retangular, um arco-íris de linhas vai se transmutando, ao toque das mãos, em delicados arabescos de formas inusitadas, e o que era um amontoado de fios desconexos transforma-se em artefatos femininos: saias, blusas, saídas de banho, colchas, toalhas e centros de mesa. As artesãs mais velhas contam que o filé chegou ao Ceará pelo porto de Aracati e depois se espalhou pelo interior. Na época, chamava-se renda de tela e era confeccionado exclusivamente com fios brancos.

Labirinto
Querendo libertar o bordado da prisão do tecido, a artesã criou o labirinto. Cortou certos trechos da fazenda e desfiou outros, retirando fios, para deixar no pano apenas os desenhos. De origem árabe, este tipo de renda foi trazido pelos portugueses no período colonial. O tecido (linho ou cambraia) é esticado em uma grade e a labirinteira o desfaz em alguns trechos, criando tramas geométricas. Deste labirinto, a rendeira só sai depois de feita a bainha, engomada e passada a peça trabalhada. Reza o mito grego que Aracne, orgulhosa por seus trabalhos em labirinto, tendo causado ciúmes à deusa Palas, foi por esta transformada em aranha. Como castigo, passou a tecer, dias e noites seguidos, as teias mais resistentes que então se conhecia, com fios muito flexíveis por ela própria segregados. O mesmo sucedeu com sua filha e com todas as labirinteiras que a seguiram. Feito uma aranha, a artesã nunca sai desse labirinto. A filha trabalha colada à mãe e assim as gerações se sucedem.

Areia Colorida
As garrafinhas com areia formando paisagens coloridas são um dos grandes ícones do artesanato do Ceará. Primeiro, a arte restringia-se a formas geométricas e arabescos. Até que num certo dia uma garrafa caiu e se quebrou, espalhando no chão grãos de areia que mais pareciam uma das belas paisagens cearenses. Vendo aquilo, a mãe de Antônio Eduardo, o Toinho das Areias, descobriu essa nova possibilidade e chegou à imagens pontilhadas, que lembram os pintores modernistas. Nos anos 1970, Toinho inovou no desenho, reproduzindo fotografias para atender a encomendas. Resultado é que o ofício se espalhou pelas praias de todo o Aracati e municípios vizinhos, como Beberibe, Icapuí e Fortim, lugares onde existem falésias do mesmo barro de ricas matizes. Com pazinhas, funis e ferros minúsculos, os artesãos fazem até três garrafas de meio litro por dia, além de copos, frascos de perfume e chaveiros. A arte, no entanto, está ameaçada porque as dunas e falésias têm sido devastadas por um turismo mal orientado.

Xilogravura
Os primeiros registros de xilogravura no Ceará dão notícias de um jornal impresso em Baturité, no ano de 1891, ilustrado por caricaturas abertas em tacos de cajazeiras. Em Juazeiro do Norte, a origem do ofício é relacionada à história do cordel e de Padre Cícero. Sua primeira aparição se deu no fim da primeira década do século passado, ilustrando páginas do jornal O Rebate, dirigido pelo próprio Padre Cícero, em substituição aos clichês de zinco, muitas vezes de difícil aquisição na época. Dos jornais e folhas de publicidade, a xilogravura alcançou os cordéis, onde parece ter encontrado seu lócus privilegiado, retratando o não-fotografável ou recriando o fotografado em sua dimensão artística.

Trançados e Cestarias
No Ceará, tudo o que se pode trançar foi feito para virar tecido, desde o algodão-mocó, que cresce no mato, passando pelas folhas da carnaúba, do catolé, da bananeira, do buriti, do coqueiro e até pelas cascas de frutas. Com mãos habituadas ao trançado, não foi difícil a índias, caboclas e mamelucas tecerem palhas, cipós e fibras. De suas mãos, nascem cordas, cestos, tangas, cocares, pincéis, vassouras e espanadores. A carnaúba, em especial, é o gado vegetal do cearense. Dela nada se perde, apesar dos espinhos. Madeira que cupim não rói, do seu tronco são feitos mourões, cercas, linhas, caibros, cruzes... Os talos das folhas viram armadilhas, utensílios de pesca, cestos e até cavalinhos-de-pau, na brincadeira das crianças. Das folhas, saem as coberturas das casas e a palha de bolsas, esteiras, chapéus, leques e porta-copos, entre outros itens.

Santeiros
Tradição de longa data, o ofício remonta à presença dos primeiros colonizadores. Seu fazer inicia-se com a escultura na madeira e completa-se na pintura da imagem. Nessa tarefa, três escolas destacam-se: a dos centros romeiros de Canindé, a de Juazeiro do Norte e a de Senador Pompeu. Muitos santeiros foram apresentados ao ofício pelo próprio Padre Cícero, que sabia da devoção de sua gente.

Bilro
Também introduzida pelos portugueses, a renda de bilro é um bordado que não usa agulhas. Em compensação, exige uma série de apetrechos, como almofada, bilros, pique, alfinetes e fios, de algodão ou linho, geralmente de cores claras. Para fabricá-la, artesã prepara a almofada, risca o desenho no pique, marca perfurando seus contornos e o prende à almofada. Depois, enfia os espinhos nos furos do pique, ata os fios aos bilros e enche-os, em número de no mínimo 12. Então, começa a tecer a renda, manipulando os bilros, em movimento de rotação, entre o polegar e o indicador, para formar o desenho desejado. Completado o desenho, chega o momento de levantar o pique, retirar os espinhos e libertar a renda da almofada.

Rede
Onde houver um cearense, sempre haverá uma rede por perto, seja nas casas, nos caminhões à beira das estradas ou nos apartamentos de cobertura. Quem a conhece, sabe que não se pode deitar no comprimento, mas de lado, na diagonal, para que o corpo fique reto e bem relaxado. Tecida em palha ou fibra, a rede era a tipóia indígena. Depois vieram as versões em palha de carnaúba e algodão, dando origem a redes javas - muito comuns em Quixeramobim - as de três panos e as de casal, com dois metros de largura. Por fim, aperfeiçoaram-se as varandas, aparecendo as redes de franja, escama, crochê, macramé, labirinto e as de renda, consideradas as mais preciosas.

Madeira
Da madeira, os artífices tiram a matéria-prima para esculpir de berços a urnas funerárias. Mas a figura mais recorrente são os barcos e jangadas, em tamanhos que vão de um metro a um mínimo dedo polegar. Alguns são vendidos dentro de garrafas, sem que ninguém consiga decifrar como a peça foi parar ali dentro. Para não dar bicho, a madeira precisa ser cortada na lua nova ou minguante. Retirada verde, precisa secar à sombra até que o artista tire dela a forma que se insinua e antecipa.

Por Diário do Grande ABC
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