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DATA DA PUBLICAÇÃO 13/08/2008 | Informática
''Jamais ganhei muito dinheiro com ele'', desabafa ''pai'' do mouse, 40 anos após a criação
1968 foi o ano em que um ex-combatente da Segunda Guerra apresentava ao mundo uma de suas maiores invenções: o mouse, um dispositivo que estreitaria a relação entre o homem e os computadores.

Quatro décadas e algumas invenções depois, o engenheiro Douglas Engelbart, 83, ainda se mostra entusiasta da informática, feliz com o reconhecimento adquirido no meio científico, mas ressentido por não ter lucrado "o bastante" com sua invenção mais popular. "Eu era inocente, um garoto do campo. Jamais ganhei muito dinheiro com ele."

Em entrevista exclusiva à Folha Online, por telefone, da Califórnia, Engelbart revela as circunstâncias que serviram de pano de fundo para o desenvolvimento do mouse e sua notável inexperiência ao comercializar as patentes da invenção com empresa do setor.

*
Folha Online - Como foi concebido o mouse?

Douglas Engelbart - O mouse fazia parte de um estudo realizado no centro de pesquisa da Universidade de Stanford sobre interatividade e o grande desafio era interagir com informações na tela. Fazíamos isso com uma caneta que emitia luz nos ícones e o computador a reconhecia, mas não era muito precisa. Então pensei que deveria existir outros meios para apontar isso com nossas mãos, sem esperar muita coisa disso tudo.

Folha Online - Quais foram as circunstâncias para sua criação?

Engelbart - Eu não esperava muita coisa. Só achava interessante essa interação. Ela surgiu a partir do hipertexto, de links. Eu me perguntava como o mouse deveria interagir na tela, e o sistema de janelas ajudou muito na época. Realmente pensei que ele tinha mais valor do que as outras pessoas pensavam, de interagir com a tela como você pode interagir com o mouse. Isso foi há muitos anos atrás e o primeiro mouse eu tenho aqui em algum lugar: uma caixa de madeira com algumas rodas.

Folha Online - Havia interesse comercial envolvido na criação do primeiro mouse?

Engelbart - Após a formatura, muitos montavam o seu próprio negócio. Não houve um interesse específico. Os alunos sempre criavam projetos visando novos negócios. Grande empresas aproveitavam e investiam nas novidades e os enriqueciam. Por isso, no Vale do Silício [Califórnia], havia muitas invenções acontecendo à época. Era muito comum para os estudantes com 20 anos quererem começar um negócio ou fazer com que ele se torne maior. E eu fui um deles.

Folha Online - De que forma o mouse modificou a informática naquela época?

Engelbart - Não tinha muito a ver com o sistema de ícones, mas com a restrição de movimentos na tela que existia naqueles tempos. Eu pensava que o mouse poderia tornar a interação homem-computador mais fácil. Por exemplo, e se eu quisesse ler somente o começo de cada parágrafo, num texto? Por que não pular do 14º para o 24º parágrafo? Eu queria essa liberdade que o computador não dava. Com o mouse, o operador indicava o objeto na tela de uma maneira mais rápida, sem perder muito tempo.

Folha Online - O mouse faz parte da primeira geração de periféricos que interagem com o usuário. O sr. acha que ele pode ser substituído por tecnologias como de telas sensíveis ao toque?

Engelbart - Eu poderia citar um monte de tecnologias, mas não sei dizer ao certo se ele poderia ser ultrapassado. Muitas delas demorariam muito para cair no gosto popular. Reconhecimento de voz? Não consigo imaginar as pessoas em geral ditando ordens ao computador, é muito cansativo [risos].

Folha Online - Qual sua relação com a Apple, uma vez que eles popularizaram sua invenção com o lançamento do Apple Lisa, de 1983?

Engelbart - Nunca ganhei dinheiro da Apple. É o que posso dizer. Mas, como disse anteriormente, o sistema onde você mexe com três janelas ao mesmo tempo impulsionou minha criação, algo que se popularizou com os computadores que eles lançaram mais tarde.

Folha Online - O sr. ganhou muito dinheiro com a venda da patente do mouse?

Engelbart - Se na época soubesse mais sobre licenciamentos, talvez soubesse como comercializá-lo. Eu era inocente, um garoto de campo. Jamais ganhei muito dinheiro com ele.

Folha Online - Mas como o sr. não ganhou dinheiro com isso?

Engelbart - Não fui educado sobre como esse tipo de negócio funciona.

Por Bruno de Oliveira - Colaboração para a Folha Online / Foto:
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