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DATA DA PUBLICAÇÃO 20/04/2009 | Saúde e Ciência
''Doei meu corpo para o ensino da medicina'', conta ex-taxista
O mineiro de Belo Horizonte José Maria da Silva, 71, foi caminhoneiro e se aposentou como taxista, profissão que exerceu durante 13 anos. Neste período, perdeu as contas do número de passageiros que transportou e da quantidade de histórias que ouviu.

Foi durante o transporte de um médico patologista, há cerca de 20 anos, que Silva tomou a decisão que ele considera a mais importante da sua vida: quando morrer, seu corpo será doado para a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde será usado como material de estudo nos cursos de medicina, fisioterapia e enfermagem.

Quando Silva morrer, não haverá enterro, apenas um velório simbólico para despedida dos familiares. Depois disso, o corpo será encaminhado para o laboratório de anatomia da Faculdade de Medicina, onde será preservado em formol diluído para depois ser estudado.

A inspiração para o gesto surgiu durante a conversa rápida que ele teve com o passageiro, médico da UFMG. "Lembro que ele usava um jaleco branco com as iniciais da universidade, mas não lembro o seu nome. Nunca mais o vi", afirma.

Silva conta que, durante o percurso, o médico fez um desabafo e comentou que as faculdades de medicina sofrem com a falta de cadáveres "frescos" (ainda não trabalhados por turmas anteriores) e que isso poderia prejudicar a formação dos alunos. "Taxista ouve muitas coisas e precisa saber filtrar o que ouve. Mas, nesse caso, a história despertou minha curiosidade e fui atrás para saber como doar o meu corpo", diz.

Depois de pensar sobre o assunto e seguro da sua decisão, Silva procurou a universidade para saber quais eram os procedimentos. Na primeira tentativa, na década de 80, passou por vários departamentos e não conseguiu efetivar sua vontade, pois ainda não havia legislação que regulamentasse a doação.

A lei que regula a doação é de 1992, mas só em 2000 Silva conseguiu se cadastrar oficialmente como doador, pois o serviço da UFMG foi inaugurado em 1999. Para isso, ele passou por uma rígida entrevista e assinou um termo que ficou registrado na faculdade. Em alguns casos, o documento é registrado em cartório, na presença de testemunhas.

Graças ao programa de doação, a universidade possui atualmente 296 doadores cadastrados e, destes, 30 já morreram e tiveram os corpos encaminhados para ensino.

Segundo o professor Geraldo Brasileiro Filho, ex-diretor da faculdade, a UFMG faz campanhas constantemente para incentivar a doação de corpos, pois a universidade praticamente não recebe cadáveres do IML (Instituto Médico Legal). "A nossa parceria com o IML existe desde 2004 e, desde então, só recebemos dez corpos. Por isso, fazemos um trabalho ativo para incentivar a doação."

Família precisa concordar

Vivendo em uma sociedade que incentiva a doação de órgãos com campanhas, mas que praticamente desconhece a doação de corpos, Silva dependerá do apoio da família para colocar em prática o desejo de doar seu corpo para estudos.

Isso porque, atualmente, quem decide se um órgão pode ou não ser doado é a família, independentemente da opção em vida do doador. A doação do corpo funciona da mesma maneira, embora a lei 8.501 de 1992 regulamente a doação de cadáver para ensino.

Apesar de ser doador declarado, com direito a carteirinha oficial e termo de doação, Silva encontrou a primeira dificuldade dentro de casa, pois sua mulher ainda não entendeu os motivos de ele querer doar o corpo depois que morrer, por isso rejeita a ideia.

"Ele cismou com esse negócio de doar o corpo, mas ainda não consigo aceitar a decisão. Acho muito complicado, eu quero ser enterrada quando morrer. Pode ser que eu mude de ideia algum dia", diz Neuza Silva, mulher de Silva.

Sem o consenso familiar, no entanto, a vontade de Silva de doar o corpo perde o valor. "As minhas filhas são mais tranquilas com relação a isso e espero que minha mulher mude de ideia com o passar do tempo. A minha família toda sabe da minha posição a respeito do assunto. Espero que ninguém me decepcione", diz o ex-taxista.

O professor Brasileiro reforça que, apesar de existir um termo oficial de doação, a universidade nunca entrará em conflito com a família do doador, caso os familiares se recusem a cumprir o termo de doação.

"A morte é um momento particularmente doloroso e nosso objetivo não é criar confronto. A faculdade precisa de corpos, mas não a qualquer custo. Por isso, é muito importante orientarmos os familiares, pois, se não os tivermos como aliados nessa tarefa, provavelmente nem saberemos que a pessoa faleceu", explicou o professor.

Silva diz esperar que a família entenda e apoie sua decisão. "Decidi doar o meu corpo para cobrir uma lacuna que existe no ensino da medicina. Se eu souber que minha vontade não foi realizada, será uma grande frustração. O nosso corpo não tem dono e, se não tem dono, é da ciência", afirma.

Por Fernanda Bassette - Folha de São Paulo
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