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DATA DA PUBLICAÇÃO 17/11/2009 | Internacional
Afeganistão fica em 2º lugar em ranking dos países mais corruptos
Após oito anos de guerra das tropas estrangeiras contra o Taleban, um afegão que foi a um prédio do governo para conseguir um certificado de casamento descobriu que teria de pagar US$ 2.000 [cerca de R$ 3.400] pelo documento. Não era uma taxa, inviável diante da renda per capita de US$ 800 [cerca de R$ 1.300] por ano, mas uma propina, um dos problemas que ameaçam a reconstrução afegã e valeram ao país a segunda pior colocação entre 180 países no ranking de corrupção da ONG Transparência Internacional.

Os organizadores do levantamento anual --que foi divulgado nesta terça-feira e reúne em um índice pesquisas feitas por diferentes organizações, desestimulam comparações entre os números de cada ano, mas, no caso do Afeganistão, não há uma alteração significativa, nem na colocação, sempre uma das últimas, nem na nota, perto de 1,5, em uma escala que vai a 10.

A falta de evolução mostra as persistentes fragilidades do governo apoiado pelo Ocidente de Hamid Karzai, reeleito para um novo mandato em meio a denúncias de fraudes generalizadas e à desistência do oponente no segundo turno, Abdullah Abdullah, que disse não confiar na idoneidade do processo eleitoral.

Karzai é o mais recente de um conjunto de líderes do país que, desde Abdul-Rahman Khan (1880-1901), tentam ao mesmo tempo ampliar o poder do Estado para todo o território historicamente dividido em clãs e etnias, manter-se indefinidamente no poder, e centralizar a ajuda estrangeira que sustenta um Estado incapaz de conseguir financiar a si mesmo com impostos. Esse papel de alicerce externo já foi exercido pelo Império britânico, pelos EUA e pela ex-União Soviética.

Para a escritora e jornalista afegã Nushin Arbabzadah, o Estado afegão deve continuar sendo o centro da colaboração internacional com o país, apesar de todos os seus problemas. Atualmente pesquisadora convidada da Universidade da Califórnia em Los Angeles, ela contou, em entrevista por telefone à Folha Online nesta segunda-feira, histórias como a do certificado de casamento, que fazem parte do cotidiano dos afegãos, mas defende que essa realidade só pode ser transformada com um apoio de longo prazo às estruturas estatais.

"Eu considero que a única forma de combater a corrupção é fortalecer o Estado afegão, dar uma perspectiva de longo prazo à população e aos funcionários" afirma Arbabzadah. "Eles não acreditam no próprio future no serviço público, então tentam conseguir o maior ganho possível no menor tempo, aproveitando cada oportunidade."

Taleban

Para Arbabzadah, a publicação de pesquisas como a da Transparência Internacional não deveria estimular os estrangeiros a trocar o Estado afegão por ONGs como os receptores de ajuda no país. Ela defende que as organizações não-governamentais podem igualmente estar envolvidas em corrupção, e são menos suscetíveis a um escrutínio público, além de constituírem mais um elemento de dispersão dos recursos, em um país no qual um dos problemas é a falta de força do governo de Cabul e no qual último grande esforço de centralização, feito pelo Taleban, ainda desperta nostalgia em muitos.

"Eu conversei recentemente com um amigo, e ele me contou que, durante o regime [da milícia radical] Taleban, saiu de carro durante o toque de recolher noturno e foi parado por um taleban que pediu seu salvo-conduto para andar àquela hora, o que ele não tinha", conta Arbabzadah. "Não houve negociação, ele não pode seguir, o que hoje seria diferente".

O regime fundamentalista islâmico do Taleban, que tolheu as liberdades individuais, é um dos principais motivos da necessidade de combater a corrupção por meio do crescimento do Estado afegão, diz Arbabzadah, pois inclina muitos no país a apoiar os militantes islâmicos.

O desafio, para o qual não há uma resposta pronta, é como ampliar o tamanho do Estado, expandir as áreas de sua atuação e o alcance de suas políticas sem criar mais corrupção. Seus efeitos negativos se refletem sobre o esforço de guerra das forças ocidentais no país.

Falta de apoio

Para o diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Berkeley, Steven Weber, um problema ainda mais grave que a corrupção é a falta de apoio ao governo.

"As medidas de transparência são, é claro, particularmente relevantes para a condução do comércio internacional e investimento --mas esse não é o principal problema quando se trata do Afeganistão. A questão é se o governo de Karzai tem apoio interno e credibilidade suficientes para ser um parceiro plausível da Otan [aliança militar ocidental] e dos EUA no esforço de guerra contra o Taleban", disse Weber em entrevista por telefone à Folha Online. "Não tenho certeza de que 'corrupção', como organizações ocidentais como a TI [Transparência Internacional] definem, é a medida certa dessa questão fundamental."

No entanto, Weber relativiza a visão que muitos afegãos têm da "incorruptibilidade" do Taleban, acusado de cobrar propinas para permitir construções em áreas sob seu domínio e de proteger plantações de papoula matéria prima do ópio-que proibira em 2000.

"Não é óbvio que um governo do Taleban no Afeganistão apareceria de forma mais positiva no índice de corrupção --isso depende muito da postura do novo governo para a economia do ópio, e que alternativas seria disponibilizadas", diz Weber.

Comissão anticorrupção

Após a confirmação de sua permanência no poder, e em meio a uma revisão feita pelos EUA sobre a estratégia para a guerra, o governo afegão anunciou nesta segunda-feira a criação de uma unidade anticorrupção de "alto nível".

"O presidente Hamid Karzai, após ser reeleito para mais cinco anos de mandato, dedicará esse período ao combate à corrupção", afirmou o Ministro do Interior, Hanif Atmar, após meses de críticas abertas dos EUA.

No dia anterior, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, defendeu a criação de uma comissão desse tipo para "punir os que se apropriaram de forma indevida" das altas quantias "enviadas ao Afeganistão nos últimos oito anos", como parte do esforço de reconstrução.

Arbabzadah tenta colocar em perspectiva as críticas vindas dos EUA, ao dizer que grande parte da corrupção e desvio de verbas envolve empresas e organizações ocidentais atuando no Afeganistão, o que, segundo ela, também é visto pela população local como uma exploração do país, e diminui a credibilidade do esforço de guerra e de reconstrução.

Por Iago Bolívar - Folha Online
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