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DATA DA PUBLICAÇÃO 29/07/2011 | Geral
Aeroportos de SP viram pontos de mendicância e trabalho infantil
Os passageiros dos aeroportos de São Paulo passaram nos últimos meses a ter de lidar com o suplicante olhar de crianças antes do check-in. É um “dinheirinho” para comprar um lanche, mas que os próprios pedintes admitem também servir para comprar videogames, televisores e computadores.

Três meninos, com idades entre 11 e 14 anos, disseram à reportagem que em um dia “ruim” conseguem arrecadar R$ 80. Em dia bom - segundas e terças-feiras são os dias da semana favoritos - chegam a obter até R$ 200. Eles primeiro oferecem o serviço de engraxe de sapatos. Se recusado, pedem um trocado "para ajudar". Um dos garotos disse sonhar em ser bombeiro. Outro, administrador de empresas. O terceiro disse não saber.

Apesar de proibidos pela segurança do aeroporto, eles também abordam de maneira discreta os passageiros dentro do terminal.

A reportagem do R7 visitou os aeroportos de Congonhas, na zona sul de São Paulo, e Cumbica, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Trabalhadores antigos dos dois terminais afirmaram que a quantidade de mendigos vem aumentando há cerca de cinco anos.

Além dos menores de idade engraxates, a reportagem do R7 foi abordada por um homem de cerca de 30 anos que contou uma história típica das rodoviárias.

– Estou precisando juntar dinheiro para comprar uma passagem para Campinas.

Outra história conhecida no aeroporto de Congonhas é a de um homem que mostra um tumor no braço. Ele diz não ter condições de trabalhar e, por isso, é forçado a pedir dinheiro. O R7 não localizou esse homem. Em Cumbica, uma mulher passa pelas mesas das lanchonetes vendendo adesivos brilhantes. Uma atendente de uma conhecida rede de lanchonetes assegurou que "sempre tem gente comprando" os adereços.

Primeira vez

A modelo mineira Nathascha Schiavi, 31 anos, frequenta aeroportos constantemente há três anos. Nunca havia sido abordada por pedintes em aeroportos até pouco tempo. A primeira vez aconteceu na lanchonete perto da área de desembarque de Congonhas. Nathascha fazia hora para pegar seu avião. Ela se alimentava distraidamente, com os dois celulares sobre a mesa e as mochilas em um carinho.

Logo depois de um menino que carregava uma típica caixa de engraxate pedir dinheiro, os celulares estavam devidamente guardados e as malas empilhadas mais próximas.

– Nunca tinha acontecido comigo. Em Belo Horizonte não tem dessas coisas. Dá uma sensação de insegurança, né?

Perto de Nathascha, porém de costas para o pedinte que circulava no saguão, um segurança fazia guarda. Segundo nota da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), autarquia responsável por administrar os dois aeroportos, os seguranças devem "convidá-los para se retirar dos terminais".

O segurança que conversou com o R7 confirmou que tem essa ordem e, apesar de estar há cerca de dois meses no trabalho, já teve problemas. Certa vez, uma mulher recusou o convite e gritou se dizendo discriminada, segundo contou o segurança. Porém, com o apoio de colegas e 15 minutos de conversa, a mulher decidiu sair do local.

Durante a conversa com o R7, um grupo de quatro crianças com caixotes de engraxate trocou olhares com o segurança. Eles desviaram seus passos, que pareciam ir em direção à porta de entrada do aeroporto, para uma praça usada como "fumódromo" em Congonhas.

Lá, os meninos ofereceram livremente seu serviço de engraxate, que custa entre R$ 5 e R$ 8, dependendo da cara do cliente. Ninguém topou a proposta dos garotos, mas o gerente de vendas Marco Mello, 46 anos, cedeu aos apelos dos garotos e deu R$ 1 para cada um.

– É chato, [dar esmolas] não é o que a gente gostaria. O ideal é que a criança estivesse na escola.

Mello não atendeu aos apelos da Infraero, que de vez em quando anuncia em seu sistema de som para não dar donativos aos pedintes. O gerente diz considerar "uma bobagem" a recomendação.

Todos os garotos que a reportagem encontrou disseram que vão à escola durante a manhã e trabalham à tarde. Porém, durante o período de férias, fazem dupla jornada.

Em dólar

Em Guarulhos, os meninos não usam caixotes. Mais discretos, usam mochilas pretas para carregar a toalha e a graxa. Algumas vezes, o pé do cliente fica apoiado no joelho.

Por se tratar de um aeroporto internacional, eles já sabem de imediato a conversão do serviço para dólar. Mas o critério é similar a do aeroporto de voos domésticos paulistano. Dependendo da cara do cliente, sai entre U$ 2 e U$ 4. Sabem falar, em inglês capenga, os números e shoe shine (engraxate).

Eles moram em favelas nas proximidades dos terminais aeroviários e nunca entraram em um avião.

Programas

A mendicância deixou de ser infração penal em 2009. Em nota, a PM confirma saber da existência desses pedintes, mas afirma que o tema não é o foco de sua alçada, que é o patrulhamento preventivo. Porém, a corporação destaca que instrui seus homens a encaminhar pessoas em situação de risco para o Conselho Tutelar, Secretaria de Assistência Social e hospitais.

O texto ainda diz que a corporação faz parcerias com os governos municipais e desenvolve ações para auxiliar o acolhimento de moradores de ruas em albergues. A PM pede que as situações de "degradação da vida humana" sejam comunicadas pelo telefone de emergência 190.

A Infraero, que também se manifestou por nota, também conta ter programas sociais. Desde 2001, há em Guarulhos o projeto de inclusão social Afinando o Futuro com Arte, voltada para jovens entre seis e 17 anos de favelas no entorno do aeroporto. Atualmente, 110 jovens são atendidos. Eles participam de uma orquestra e contam com oficinas de capacitação profissional e reforço escolar.

Em Congonhas, desde 2002, há o Hangar do Aprendiz, também voltado para pessoas carentes no entorno do aeroporto, com aulas de informática e curso preparatório de formação profissional.

- O compromisso da Infraero é buscar diminuir as distâncias entre a excelência tecnológica dos aeroportos brasileiros e as comunidades carentes que vivem no entorno aeroportuário.

Por João Varella - R7
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