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DATA DA PUBLICAÇÃO 26/11/2011 | Setecidades
ABCD é a capital latinoamericana da poluição
ABCD é a capital latinoamericana da poluição  Trecho da represa Billings em Rio Grande: ameaça da dioxina. Foto: Luciano Vicioni
Trecho da represa Billings em Rio Grande: ameaça da dioxina. Foto: Luciano Vicioni
Mais de um milhão de toneladas de poluente altamente tóxico estão em depósito criticado por especialistas

O depósito de 200 mil m² da empresa Solvay Indupa, em Santo André, com cerca de 1 milhão de toneladas de cal contaminada com dioxina, é a maior concentração de POP (Poluente Orgânico Persistente) da América Latina, de acordo com documentos do Greenpeace. A dioxina é um dos 22 poluentes mais tóxicos e perigosos do mundo e está em um espaço equivalente a 20 campos de futebol, localizado em área de manancial no ABCD, à beira da represa Billings.

A cal contaminada é um subproduto do processo químico para a produção do PVC (plástico) fabricado, nos anos 1990, na Solvay. A descoberta da dioxina ocorreu em 1999. Na ocasião o produto já havia contaminado o leito e a represa, as águas subterrâneas, o solo e o subsolo do depósito, onde a multinacional armazenava o produto para venda e exportação.

Por conta do risco ao meio ambiente e à saúde humana, o caso foi investigado e acompanhado pelo Ministério Público, pela Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e pelo Greenpeace. Porém, por não existir tecnologia capaz de descontaminar o espaço, o Termo de Acordo Procedimental firmado entre os órgãos e a empresa exigiu o confinamento geotécnico ambiental do material, de modo a isolar o depósito e proteger as águas subterrâneas e o braço rio Grande de posteriores contaminações.

Depósito - Em nota, a Solvay explicou que a técnica consiste na cobertura impermeabilizante do depósito, o que evita a entrada de água de chuva no sistema. Para complementar, a Cetesb esclareceu que foi montada uma barreira hidráulica entre a área confinada e o rio Grande. A linha de poços capta as águas subterrâneas e bombeia com uma vazão média de 10 m³/h para uma estação de tratamento. Após ser filtrada, a água é enviada para um tanque, por onde passa por filtros de carvão ativado.
A multinacional e a Cetesb garantem que nenhuma gota dessa água cai na Billings, uma vez que o líquido captado e tratado é encaminhado ao coletor-tronco da Sabesp (Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo). A Solvay gastou R$ 285 milhões no sistema ambiental e investe R$ 300 mil, por ano, para a manutenção do sistema de gestão ambiental.

Descontaminação - A Cetesb, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) e especialistas ouvidos pelo ABCD MAIOR garantem que confinar e isolar substâncias como os POPs são, em geral, apenas uma parte do processo de descontaminação. Portanto, o episódio de contaminação da empresa Solvay Indupa, em Santo André, está longe do fim.

Para Lázaro Valentin Zuquette, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geotecnia da Escola de Engenharia de São Carlos da USP (Universidade de São Paulo), doutor e especialista em geociências, na área de análise e riscos geoambientais, o encapsulamento não foi a melhor escolha ambiental. “A solução encontrada é viável economicamente, mas não ambientalmente”, avaliou. Zuquette acredita que o certo seria escavar e retirar toda a cal da área de manancial. “Outra área poderia ser preparada para receber o material, como se fosse receber um aterro sanitário, e a empresa ainda teria de recuperar o depósito”, comentou o professor.

Vazamentos - Por não ter isolamento na parte das águas subterrâneas, mas apenas o sistema de bombeamento, Zuquette afirma ser difícil garantir a impossibilidade de vazamentos. “Sem estudos não dá para saber qual é a probabilidade, mas isso não quer dizer que ela não exista. O que posso dizer é que o risco de vazamentos não é zero”, destacou.

O promotor de Meio Ambiente de Santo André, José Luiz Saikali, compartilha da opinião do material não ficar encapsulado para sempre, mas pede cautela para o caso. “O material deve ficar lá, até que um método seja desenvolvido para retirá-lo, sem colocar em risco a saúde de qualquer um dos envolvidos”, disse. A Cetesb ainda informou que a Solvay se comprometeu em implantar uma solução tecnicamente viável de descontaminação, assim que uma for descoberta.

Experiências - Na Europa e nos Estados Unidos existem confinamentos bem-sucedidos. Mas também existe um contraexemplo do uso exclusivo da remediação. O aterro da indústria química ICI Chemicals and Polymers, no Reino Unido, começou a vazar após quase 50 anos de confinamento.

Para evitar que as pessoas ficassem expostas aos tóxicos, a empresa teve de comprar as casas de quem vivia na região.

Cuidados - O promotor José Luiz Saikali acompanha o caso desde o início e garantiu que todos os cuidados vêm sendo realizados para evitar que a cal contaminada entre em contato com a natureza ou com humanos. “O monitoramento é realizado constantemente, até porque, se algum desequilíbrio acontecer, temos de saber a tempo. Porém, até o momento, está tudo indo bem”, afirmou. Já a Cetesb revelou inspecionar o sistema de contenção e isolamento, em média, uma vez por mês.

Apesar do cuidado empregado na ação, o artigo 41 da Lei Específica da Billings proíbe atividade que manipule ou armazene substâncias que sejam risco ao meio ambiente, o que inclui POPs e metais pesados. A legislação foi aprovada em 2009, dez anos após o incidente na Solvay e do Termo de Acordo Procedimental ter sido assinado.

Leite contaminado - O caso da cal contaminada da empresa Solvay Indupa, localizada em área de manancial de Santo André, foi detectado devido à contaminação do leite e da manteiga produzidos na Alemanha. Investigações científicas detectaram níveis alarmantes da dioxina em amostras coletadas desde setembro de 1997. A substância é cancerígena. O fato causou polêmica e deixou a Europa apreensiva. Diante da situação, a União Europeia baniu as importações de CPP (Polpa Cítrica Peletizada) do Brasil, o que causou uma crise internacional.

Na época, mais de 1,3 milhão de toneladas de CPP eram expedidas do porto de Santos. Na Europa, havia quase 95 mil toneladas de CPP brasileira e 11 mil toneladas de ração contaminada. O Brasil somente retornou a exportar o material, após se comprometer a investigar a contaminação e tomar medidas rígidas para que o problema não voltasse a se repetir. Todo o material contaminado foi destruído e os importadores, indenizados.

Ração - As autoridades alemãs chegaram à contaminação no ABCD, após examinarem uma ampla gama de possibilidades e concluírem que a ração diária do gado continha níveis elevados de dioxina. Seis componentes da ração foram analisados separadamente e o farelo de polpa cítrica proveniente do Brasil foi apontado como a fonte. O farelo de polpa cítrica é amplamente usado na Europa na ração animal. Na mistura, a cal é usada para diminuir a acidez do produto. Além da Alemanha, o problema atingiu a Holanda e a França.

Por Claudia Mayara - ABCD Maior
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